Crônicas do Museu
Entre a liberdade do sítio em Pernambuco e o brilho da TV em São Paulo: como duas infâncias moldaram minha visão de mundo.
Por Sérgio Diniz | 16 de Janeiro de 2026
Muita gente caminha pelo Museu Virtual Ecobraz e vê apenas "aparelhos velhos". Eu vejo a minha própria vida. Hoje, quero contar a história da tecnologia através dos meus olhos, mas para isso preciso voltar um pouco antes do "botão de ligar".
Eu nasci em São Paulo, em 1982, mas costumo dizer que sou pernambucano de coração. Meu pai é de Pernambuco, minha mãe é da Bahia. Eles se encontraram aqui na garoa, casaram e formaram família. Mas o sangue do Nordeste sempre falou alto.
Em 1986, quando eu tinha apenas 4 anos, fomos para Pernambuco. Passamos dois anos lá. Um ano na cidade e outro na zona rural, no sítio dos meus avós paternos.
Muita gente acha que viver sem energia elétrica é sinônimo de tristeza. Para mim, foi o oposto. Eu amava aquele lugar. Tinha o carinho dos meus avós, tinha os bichos para cuidar, tinha o mato. Eu era tão feliz correndo livre que, sinceramente? Nem lembrava que tecnologia existia. A "tela" que eu assistia era o céu estrelado do sertão.
Mas o destino trouxe a gente de volta para São Paulo em 1988. Eu tinha 6 anos. E foi aí que o contraste aconteceu.
Saí da calma do sítio para a agitação da Vila Ema. E quem estava lá me esperando na sala? A nossa guerreira: uma TV Telefunken de 14 polegadas.
Ela já era da família, mas eu nem lembrava direito. O reencontro foi mágico. Foi nessa tela de caixa de madeira, girando o seletor manual (*clack, clack*), que eu fui atropelado pela febre daquele ano: os Tokusatsus.
Sair da roça e dar de cara com o Jaspion e o Changeman lutando contra monstros gigantes naquela telinha foi alucinante. A Telefunken virou o meu novo "sítio", o meu lugar de diversão.
Em 1990, nos mudamos para o bairro Santa Clara. A vida financeira era apertada, de muito recomeço. Enquanto os vizinhos "abastados" começavam a ganhar seus videogames, a minha realidade era a Telefunken e as fichas contadas do fliperama. Mas eu era feliz. Tive a sorte de viver o melhor dos dois mundos: a raiz da terra e a magia do tubo.
Hoje, quando preservo uma TV dessas no Museu da Ecobraz, eu honro essa jornada. Preservar não é só guardar o objeto, é guardar a memória do menino que aprendeu a amar a tecnologia sem esquecer de onde veio.
Essa foi a minha primeira tela. Na próxima crônica, vou contar o dia em que essa realidade mudou de vez, quando uma TV de 20 polegadas e uma caixa misteriosa entraram na minha vida e me fizeram chorar.
Sérgio Diniz
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