Crônicas do Museu
Da tensão dos fliperamas de bairro à emoção de ver uma TV de 20 polegadas entrar numa casa simples. Essa é a história de como os videogames moldaram meu caráter.
Por Sérgio Diniz | 16 de Janeiro de 2026
Se a TV Telefunken foi a minha introdução à tecnologia, os fliperamas foram a minha escola de vida. No início dos anos 90, eu tinha acabado de sair do pré e entrado na primeira série. O mundo estava mudando, e o meu bairro, o Santa Clara, fervilhava.
Só num raio de poucos quarteirões, tínhamos uns quatro fliperamas dedicados. Fora isso, qualquer barzinho de esquina ostentava, orgulhoso, pelo menos uma máquina piscando no canto. Era a "Era de Ouro" dos Arcades.
Minha rotina tinha uma regra clara imposta pela minha mãe: notas boas na escola, passe livre para o fliperama. Como eu não dava trabalho nos estudos, ganhava o direito de gastar minhas poucas moedas naquele templo de barulho e luzes neon.
Lembro como se fosse hoje a primeira vez que vi uma máquina de Final Fight. Era um monstro. Um gabinete gigante, com espaço para sentar e uma tela que, anos depois, descobri ter 43 polegadas. Para um menino pequeno, aquilo era cinema. O som dos socos, os gráficos coloridos, a cidade suja e vibrante... eu fiquei fissurado.
Jogávamos de tudo: Double Dragon, Tartarugas Ninja. Tudo era novidade. Mas então, chegou a revolução. O jogo que mudou tudo: Street Fighter II.
Ali, inaugurava-se a "Era dos Contras".
O clima no fliperama mudou. Não era mais você contra a máquina; era ficha contra ficha. A regra era brutal: perdeu, cai fora. Eu, com meu orçamento limitadíssimo, muitas vezes só assistia. Ficava ali, observando os mais velhos jogarem, decorando os golpes, esperando a máquina esvaziar para poder treinar.
Mas bastava eu colocar minha ficha para vir alguém e desafiar. Se eu perdesse, lá se ia o dinheiro do lanche. Por isso, muitas vezes eu corria para os jogos "Beat 'em up" (briga de rua), que eram cooperativos. Ali a ficha durava mais e a diversão era garantida.
Falo com muito carinho dessa época. Foi entre fichas e "Hadoukens" que fiz amizades que carrego até hoje. O fliperama não era só jogo, era convivência.
(Nota do Curador: O meu sonho é que, um dia, alguém doe um gabinete arcade original para o Museu Virtual Ecobraz. Seria a joia da coroa do nosso acervo.)
Enquanto a rua vivia a febre do arcade, dentro de casa a realidade era outra. Nossa casa era humilde, apenas dois cômodos: cozinha e quarto. Os vizinhos mais abastados já ostentavam seus Mega Drives e Super Nintendos (a era 16 bits estava nascendo), mas para nós, isso era sonho distante.
Até aquele dia.
Eu tinha passado parte das férias na casa de uma tia. Meus pais foram me buscar e, na volta, meu pai subiu na frente para abrir a casa. Eu, distraído com a bagagem, entrei depois.
Quando pisei no quarto, minhas pernas tremeram.
No lugar de destaque, não estava mais a velha Telefunken. Havia uma TV Colorida de 20 POLEGADAS. Enorme. Moderna. E com o item mais luxuoso da época: controle remoto.
Mas o choque real veio quando olhei para o lado. Em cima da mesa, brilhando como ouro, estava uma caixa linda. Não era um Super Nintendo, mas para mim valia muito mais: era um Hi-Top Game, da Milmar.
Meus olhos encheram de lágrimas. Eu não sabia o que falar. Corri e abracei meu pai e minha mãe com uma força que acho que nunca tinha usado antes. Aquele "clone" de 8 bits (o Nintendinho brasileiro) era a prova de que eles faziam o impossível por mim.
A euforia era tanta que eu nem sabia ligar o aparelho. Corri na casa do vizinho, um amigo que "manjava" de eletrônicos. Ele veio, conectou os cabos RF na TV nova, sintonizou o canal 3 e... mágica.
A tela acendeu. O jogo que veio com o videogame? "Tales of Fate". Era um jogo de Mahjong. Sinceramente? Chato pra caramba. Eu estava doido para jogar Double Dragon, Kirby ou Megaman.
Mas quer saber? Eu joguei aquele Mahjong com o sorriso mais largo do mundo. Porque aquela TV de 20 polegadas e aquele Hi-Top Game eram nossos. Eram a minha vitória, o meu arcade particular dentro do nosso castelo de dois cômodos.
Histórias como essa são a alma do Museu Virtual Ecobraz. Cada console, cada TV de tubo que a gente preserva, carrega o suor de um pai e a alegria de um filho.
Sérgio Diniz
Leia mais crônicas no Ecobraz Informa
Conheça mais sobre a atuação da Ecobraz e apoie nossa missão:
Site oficial | Ecobraz Informa | Museu Virtual | Instagram | Facebook | LinkedIn | Threads