Crônicas do Museu: A Era de Ouro
Quem viveu sabe: a alegria de pegar 3 fitas para devolver na segunda e o perigo de alugar jogo ruim só pela capa bonita.
Por Sérgio Diniz | 30 de Janeiro de 2026
Hoje em dia, a molecada baixa o jogo em segundos na nuvem. Mas na minha infância, a diversão começava muito antes de ligar a TV. Começava na rua, jogando taco, queimada e bola, e terminava na sexta-feira, religiosamente, no balcão da locadora.
Era uma regra não escrita, mas seguida por todo mundo do bairro: sexta-feira a gente alugava 2 ou 3 fitas. O prazo? Devolver só na segunda-feira até as 18h. Aquele fim de semana era sagrado. E vou falar, no meu bairro, houve uma época que tinha mais locadora que fliperama.
Eu lembro de algumas claramente. Tinha a Pioneer, que alugava filmes e games, e deixava a gente jogar por hora no Mega Drive e no Super Nintendo. Tinha a Dica Vídeo, que também tinha um acervo legal de SNES.
Mas a melhor de todas era a Ficção Games. Essa era especializada. O dono manjava e o ambiente era diferente. Além das prateleiras cheias que iam do chão ao teto, eles tinham gabinetes de madeira com controles arcade adaptados para os consoles caseiros. Era o auge da guerra dos 16-bits e a locadora era o nosso ponto de encontro.
A ida até lá era um evento social. A gente ia em turma, fazia vaquinha. Depois de alugar, a peregrinação continuava: íamos na casa de um, depois na casa do outro, só para conferir o que cada um tinha conseguido pegar. Era uma alegria genuína.
Mas nem tudo eram flores. Quem tinha Nintendinho — ou os saudosos clones brasileiros, como o meu guerreiro Hi-Top Game da Milmar — sabia que a luta era difícil. Nessa época, o NES já não era mais o topo de linha (já tinha Super Nintendo e Mega Drive voando baixo), mas a variedade de fitas ainda era gigante.
O problema era escolher. A gente ia pela capa. Às vezes a arte era uma pintura digna de cinema, você alugava empolgado, e quando ligava... o jogo era horrível. E tinha o problema clássico da sexta-feira: chegava na locadora e as fitas famosas (Mario, Contra, Castlevania) já tinham voado. Restava a sorte e o garimpo.
Numa dessas idas na sorte, eu me dei bem. Lembro até hoje do diálogo no balcão da Ficção:
— "Esse jogo é bom?"
— "Cara, todos que alugaram gostaram, dizem que parece Mario."
O nome na etiqueta do cartucho era "Super Dínamo". Levei pra casa desconfiado.
Quando coloquei a fita no meu Hi-Top Game, veio a surpresa. Que jogo bom! Era um jogo de plataforma muito divertido, colorido e ágil. Zerei naquele fim de semana mesmo, jogando sem parar. Esse jogo ficou marcado na minha memória com muito carinho, como uma daquelas pérolas que só quem fuçava as prateleiras encontrava.
O curioso é que, anos depois, quando fui procurar por ele na internet, eu digitava "Super Dínamo" e não achava quase nada sobre a origem. Só fui descobrir há pouco tempo que o nome original japonês era Paaman (baseado num anime). O "Super Dínamo" era o nome da versão pirata brasileira que vinha na fita mesmo.
Ainda tenho o sonho de, um dia, encontrar um cartucho desses perdido no meio da sucata eletrônica que chega aqui na Ecobraz. Nunca aconteceu, infelizmente, mas a gente sempre olha com esperança. Por isso tratamos cada equipamento antigo com respeito na triagem. Ali pode ter a infância de alguém.
Essa era a nossa era de ouro. Minha memória cronológica falha um pouco se isso foi antes ou durante o auge dos fliperamas de rua, mas sei que foi antes de 1994. Mas essa fica para uma próxima história aqui das Crônicas do Museu.
Sérgio Diniz
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