Por Sérgio Diniz, colunista.
Na minha experiência a manusear e-lixo, muitas vezes me pego a olhar para uma placa-mãe antiga e a pensar: "Isto parece um mapa de uma cidade". As trilhas de cobre são as ruas, os chips pretos são os prédios, os capacitores coloridos são os parques. É um labirinto de engenharia.
Essa percepção não é única. Existe um nicho fascinante na fotografia que se dedica exatamente a isso: a macrofotografia de e-lixo. São fotógrafos que usam lentes especiais, capazes de ampliar dezenas de vezes um objeto, para revelar a beleza abstrata e complexa escondida naquilo que chamamos de "lixo".
Quando vistas de tão perto, as placas de circuito perdem a sua função e tornam-se arte. O que vemos não é um "computador quebrado", mas sim:
Artistas como o finlandês Juho Huttunen ou projetos de fotografia macro revelam que o nosso lixo eletrónico é tudo menos "lixo" na sua composição. Ele é o auge da engenharia humana, compactado numa pequena peça.
Esta é a pauta mais importante para mim como colunista do Ecobraz Informa. É fácil ver estas fotos incríveis e pensar: "Vou guardar as minhas placas velhas, elas são bonitas!".
É aqui que a arte e a responsabilidade ambiental colidem.
A beleza não nega o risco. Como já vimos [em outras matérias sobre o perigo do e-lixo], esta "cidade de cobre" é tóxica.
Esta beleza só deve ser apreciada visualmente. Manusear, cortar ou guardar esta sucata em casa é um risco para a saúde, como já alertámos [nos artigos sobre arte e moda com e-lixo].
O nosso trabalho na ecobraz.org é ser o gestor desta complexidade. Nós vemos a beleza, mas entendemos o perigo.
O facto de uma placa-mãe ser visualmente espetacular é precisamente o que prova que ela é complexa demais para o lixo comum. A PNRS (Lei 12.305/10) existe porque esta "cidade de cobre" precisa de um desmonte especializado.
O nosso ciclo é claro:
São eles que têm a tecnologia para fazer a "mineração urbana" de forma segura, recuperando os metais de valor e neutralizando os tóxicos.
A macrofotografia ensina-nos a ter respeito pelo e-lixo. Ensina-nos que o que deitamos fora não é simples, e é por isso que precisa de um destino profissional.
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