19/11/2025 às 14h25min - Atualizada em 23/11/2025 às 14h19min

COP30 em Belém: o palco amazônico e a voz dos povos originários

Evento global trouxe holofotes para a floresta, mas comunidades locais questionam inclusão real. Ecobraz relata desafios da logística reversa na região.

ecobraz.org
Sergio Diniz - ecobrazinforma.org

COP30 em Belém: o palco amazônico e a voz dos povos originários

Belém, PA - A escolha de Belém como sede da COP30 colocou a Amazônia no centro do debate climático global. Mas além dos holofotes internacionais e das estruturas temporárias, persiste uma cidade real com 1,5 milhão de habitantes e desafios ambientais crônicos. Durante as duas semanas do evento, pude acompanhar não apenas as discussões oficiais, mas também as vozes das comunidades tradicionais e os entraves logísticos que dificultam até mesmo a coleta de lixo eletrônico nesta que é uma das regiões mais complexas do Brasil para a logística reversa.

Belém: A Porta de Entrada da Amazônia no Palco Global

Capital do Pará, Belém carrega o título de "Metrópole da Amazônia" com seus contrastes característicos. Enquanto recebia chefes de estado e delegações internacionais, a cidade continua enfrentando desafios históricos de saneamento básico e gestão de resíduos. O aterro sanitário de Marituba, que recebe lixo de Belém e outros 10 municípios, opera próximo à capacidade máxima, recebendo diariamente cerca de 2,5 mil toneladas de resíduos.

Neste contexto, a implementação de soluções para resíduos especiais como o lixo eletrônico torna-se ainda mais urgente. Na Ecobraz, temos registrado um crescimento de 40% na demanda por coleta na região Norte nos últimos dois anos, reflexo tanto do aumento do consumo quanto da maior conscientização sobre os perigos do descarte inadequado.

Os Povos Originários: Do Simbólico ao Concreto

A presença de lideranças indígenas foi uma das marcas da COP30, com representantes de mais de 50 etnias participando tanto do evento oficial quanto da Cúpula dos Povos. No entanto, o caráter simbólico dessa participação foi questionado por muitos. "Nossas vozes são ouvidas, mas nossas terras continuam sendo invadidas e nossos rios, contaminados", desabafou uma liderança Munduruku durante entrevista coletiva.

"Trouxemos nossa sabedoria ancestral, mas levaremos de volta apenas promessas?", questionou representante do povo Kayapó.

Este cenário me remete aos relatos que coleto em minhas viagens como agente de coleta. Comunidades ribeirinhas e indígenas que recebem equipamentos eletrônicos através de programas governamentais depois enfrentam o dilema do descarte quando esses aparelhos quebram, muitas vezes recorrendo a queimas a céu aberto que liberam substâncias tóxicas no ambiente.

O Desafio Logístico: Dos Rios às Estradas

A realidade da logística na Amazônia é única. Estradas precárias, dependência do transporte fluvial e grandes distâncias tornam o custo da coleta de lixo eletrônico significativamente maior do que em outras regiões. Um agendamento através do sistema da Ecobraz em comunidades ribeirinhas pode exigir dias de viagem e combinação de diferentes modais de transporte.

Estima-se que apenas 30% dos municípios da Amazônia Legal possuem sistemas regulares de coleta seletiva, segundo dados do SNIS. Para o lixo eletrônico, esse percentual é ainda menor. Esta realidade contrasta brutalmente com a imagem internacional da região como berço da biodiversidade e fortaleza ambiental.

Tecnologia e Tradição: O Encontro Possível

Um dos aspectos mais interessantes que observei durante a COP30 foi o uso de tecnologia por comunidades tradicionais para monitoramento territorial e comunicação. Tablets e smartphones tornaram-se ferramentas importantes na proteção de territórios indígenas contra invasões. No entanto, o fim da vida útil desses equipamentos representa um novo desafio ambiental.

É neste contexto que nosso trabalho na Ecobraz ganha dimensão social adicional. Ao garantir que placas, placas-mãe e circuitos sejam encaminhados para parceiros especializados, não apenas prevenimos a contaminação do solo e da água, mas também contribuímos para a saúde das comunidades que dependem diretamente desses recursos naturais. Cada coleta realizada na região é um passo para conciliar o inevitável avanço tecnológico com a preservação dos modos de vida tradicionais.

O Legado que Fica: Para Além dos Holofotes

Com o encerramento da COP30, Belém retorna à sua rotina, mas a questão permanece: que legado ambiental concreto o evento deixará para a população local? Estruturas físicas serão desmontadas, mas os problemas crônicos de gestão de resíduos persistem.

Enquanto isso, organizações com atuação permanente na região, como a Ecobraz, continuam seu trabalho de base, educando sobre a importância do descarte adequado e construindo uma rede de coleta que respeita as peculiaridades logísticas da Amazônia. O verdadeiro legado da COP30 para a região talvez não esteja nas declarações oficiais, mas na capacidade de transformar o momento de visibilidade global em avanços concretos para a sustentabilidade local.

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