Por Sérgio Diniz, colunista.
Na minha experiência com a coleta de resíduos eletrônicos, aprendi a ver os componentes de uma forma diferente. Quando manuseio centenas de placas-mãe, HDs antigos e pentes de memória, não vejo só resíduo. Vejo o design intrincado, quase como um mapa de uma cidade, um labirinto verde e prata.
E, ao que parece, eu não sou o único. Existe um movimento artístico global chamado "E-Waste Art", ou Arte com Lixo Eletrônico, que vê exatamente isso: beleza onde a maioria vê descarte.
A "Arte da Sucata" transforma o componente eletrônico em matéria-prima. O e-lixo, nesse caso, não é reciclado pela sua química, mas ressignificado pela sua estética. As trilhas de cobre, os chips pretos, os capacitores coloridos e o verde-militar das placas (o chamado "PCB") viram a paleta de cores desses artistas.
Os exemplos são incríveis e mostram a variedade de estilos:
O que esses artistas fazem é o nível máximo da economia circular: eles não estão apenas reciclando o material; eles estão elevando seu valor a um patamar cultural.
Ver essa arte inspira. Dá vontade de pegar aquela placa-mãe velha e tentar fazer algo. E aqui, como profissional da área de resíduos, eu preciso fazer um alerta muito sério.
Não faça isso sem orientação.
Como já alertei [neste artigo sobre a "bomba-relógio"], o e-lixo é perigoso. O maior risco não está em simplesmente tocar uma placa inerte, mas em manuseá-la de forma errada.
A "E-Waste Art" profissional só é segura porque os artistas sabem o que estão fazendo ou recebem o material já descontaminado. Pegar uma placa aleatória do lixo para um projeto de "faça você mesmo" pode ser um risco à sua saúde.
Então, como fomentar essa arte de forma segura? É aqui que o nosso trabalho na ecobraz.org se torna o ponto de partida.
Como determina a PNRS (Lei 12.305/10), todo e-lixo precisa de destinação correta. Quando recolhemos o material, nossa primeira etapa é a triagem técnica.
Nós separamos o que é perigoso (baterias, lâmpadas de mercúrio, componentes com risco de vazamento) do que é inerte (plásticos de carcaça, placas já limpas).
O material que não pode ser reusado (doado ou reinserido no mercado) tem dois destinos:
A Ecobraz atua como a entidade que pode fornecer esses materiais (que não têm mais uso técnico) de forma segura e já triada para artistas, artesãos e instituições culturais. Nós garantimos que o artista receba a "tinta" (a placa-mãe) sem o "veneno" (a bateria de lítio que estava nela).
É um novo ciclo virtuoso. O "lixo" que coletamos vira inclusão digital (se funcionar), vira matéria-prima industrial (se for reciclado), ou vira arte nas mãos de um criativo.
A arte nos ensina a ver valor onde ninguém mais vê. E se você quiser ver o valor histórico que nós vemos nesses aparelhos, visite nosso acervo digitalizado (que inclui consoles clássicos) em museu.ecobraz.net.
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